11 Junho 2010

Cosmos, de Nova Iorque, em Manaus

Começo da década de 80. Naqueles tempos os maiores craques do futebol ainda não eram conhecidos por "galácticos" e o clube à época mais recheado deles agora já não mais existe. Porém, vale recordar a inesquecível visita do supertime do Cosmos, de Nova Iorque, no dia 9 de março de 1980, para enfrentar o Fast Clube, em Manaus.

Craques do marketing

O time norte-americano, apesar das inúmeras conquistas no seu país, era mais uma jogada de marketing para promover o futebol, ou melhor, o soccer, na terra do Tio Sam do que propriamente uma equipe com pretensões esportivas.

Para tanto, seus criadores e dirigentes, amparados em recursos da gravadora Warner Communications (atual Time Warner), formaram um time de estrelas do futebol em fim de carreira, mas com prestígio suficiente para chamar a atenção para a incipiente e inexpressiva liga norte-americana.

Como dinheiro não era problema, o New York Cosmos chegou a contar em seu elenco com Beckenbauer, Eusébio, Cruyff e nada menos do que com o rei Pelé, além de muitas outras estrelas menores.

Empate histórico
No histórico confronto amistoso com o Fast de Manaus, que terminou empatado em 0x0, o Cosmos já não contava com Pelé, que encerrara a carreira e a participação no clube norte-americano, em 1977, com uma vitória (2x1) diante do seu ex-time, o Santos. Na verdade, o Rei jogou meio-tempo por cada time.

O Vivaldão teve naquele dia o maior público da sua história, cerca de 56 mil pessoas. Seu gramado recebeu nomes como Carlos Alberto Torres, Beckenbauer, Romerito, Chinaglia (todos pelo Cosmos) e o tricampeão de 70 Clodoaldo, principal atração do Fast.

As pipas do Seu Tonico Piola
Só tenho vagas lembranças desse importante dia para o futebol amazonense (tinha 13 anos) e recorri ao Google em busca de detalhes. Curiosamente, minha maior lembrança relacionada ao Fast é de que minha casa em Manaus ficava (meus irmãos ainda moram lá) a pouca distância da residência dos Piola, na avenida Ayrão.

Os Piola em referência eram quatro (pai e três filhos) e formavam um clã de ex-jogadores do Fast. Lembro-me de um escudo do clube na sala. Ia à casa deles com frequência, mas o motivo não era o futebol e sim as belas e enormes pipas (papagaios, como se diz na minha terra) fabricadas pelo já idoso Antonio Piola, conhecido pela molecada como Seu Tonico.
O clã de origem italiana dos Piola. Antônio, Zequinha e Edson jogaram no time do Fast e enfrentaram juntos o Santos de Pelé, em Manaus, em 1968. O Santos venceu por 3x0, mas trouxe consigo o árbitro da partida e há quem levante suspeitas sobre o resultado, pelas falhas cometidas a favor do time paulista. Será que precisava?

As pipas do Seu Tonico eram obras de arte, mas só podiam ser empinadas com linha zero, a mais forte. Seu Tonico também vendia linhas com cerol, porém não tinham o prestígio do "cerol do Russo", sinônimo de excelência entre os pipeiros. Ou melhor, papagaieiros.

O clássico do galo preto
Apesar da frase que "se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminava empatado" (Neném Prancha), é nas disputas de dois times amazonenses, localizados em bairros rivais em Manaus, que a magia negra ganha mais importância para os torcedores, segundo o card Visa reproduzido a seguir.

Só para completar. O São Raimundo é do bairro homônimo e o Sul-América é do vizinho bairro da Glória, próximos ao centro da capital amazonense.

04 Fevereiro 2010

Manaus antiga

Minha amiga Giulliane Di Rose recebeu por email fotos antigas da cidade de Manaus e as reencaminhou a mim. Sorte nossa. Só a lamentar que não há qualquer identificação da procedência (fonte, autor, data, etc). Mas dá para ver pelas diferenças com a realidade atual de cada localidade que são muito antigas, verdadeiras relíquias. Pesquisa na internet revelou que há muitas outras que provavelmente foram retiradas da mesma fonte. Vou me restringir às que recebi no email, mas oferecendo alguns dados. Bom proveito.


Relógio Municipal, localizado no início da avenida Eduardo Ribeiro. Importado da Suíça e instalado no ano de 1927 em comemoração ao centenário da elevação de Manaus à categoria de cidade.

Praça Osvaldo Cruz, tendo ao fundo a Igreja Matriz, por isso conhecida também por Praça da Matriz.
Ponte metálica Eduardo Ribeiro, na avenida Sete de Setembro, recentemente restaurada e reinaugurada.
Praça Osvaldo Cruz alagada (como se vê, o problema é antigo).

Casas comerciais em frente à mesma praça invadidas pelas águas.
A matriz, a praça, o prédio da Alfândega e o relógio à direita, tudo próximo ao Porto, que não aparece na foto.
A frente do Teatro Amazonas vista de lado. O Teatro é o maior símbolo da cidade e passou por diversas reformas ao longo dos anos, inclusive mudando de cor diversas vezes (há controvérsia de qual seria a cor original). Durante a Segunda Guerra Mundial chegou a virar um simples depósito.
Avenida Eduardo Ribeiro, a principal da cidade, localizada no Centro, atrás do Teatro. O maranhense Eduardo Gonçalves Ribeiro foi o segundo governador do período republicano. Notabilizou-se por ser o governador que impulsionou as obras do Teatro Amazonas, iniciadas antes de suas gestões (com início em 1890 e término em 1896), mas morosas até então. A avenida recebeu seu nome por também ter sido obra sua.

Avenida Eduardo Ribeiro. Note-se ao fundo, além dos carros antigos, os bondes, tendo sido Manaus uma das primeiras cidades do Brasil a possuí-los. Clique e conheça melhor a história dos bondes em Manaus, contada por Carlos Pimentel Mendes.
Avenida Eduardo Ribeiro. O prédio da Alfândega aparece ao fundo e, atrás dele, o Roadway, o famoso cais flutuante que acompanha o nível das águas, construído por ingleses.

Avenida Eduardo Ribeiro sem os comércios e a multidão atuais. Em 1822, data da independência do Brasil, Manaus tinha meros 14 mil habitantes. Nos primeiros anos do século 20 ainda não alcançava 100 mil, mesmo com o boom da borracha que atraiu milhares de imigrante à cidade.
Novamente a avenida Eduardo Ribeiro, em outro trecho. Levando em conta que aparecem um Jeep e um Fusca na foto, não pode ser anterior à década de 30, pois ambos os carros surgiram nessa época.

Visão geral da mesma avenida, o teatro à direita. Compare-se com um registro da Avenida Paulista em 1905, logo abaixo.
Avenida Paulista, 1905.

Sede do Atlético Rio Negro Clube, meu time do coração em Manaus. Fundado em 1913 por um grupo de adolescentes, é segundo em número de títulos estaduais no Amazonas, perdendo apenas para o arquirrival Nacional. Gilmar Silva Oliveira, ou Popoca, como era conhecido em Manaus, foi seu jogador mais conhecido, embora tenha saído muito cedo para integrar as categorias de base do Flamengo. Popoca fez tanto sucesso, inclusive na seleção brasileira sub-20, que chegou a ser apontado como sucessor de Zico. Infelizmente, o temperamento do jogador e suas queixas contra dirigentes prejudicaram sua carreira, que foi muito aquém do que poderia ter sido. Veja matéria a respeito.


Antiga agência central dos Correios em Manaus. Assim como muitos outros órgãos públicos na cidade, suas instalações pertenceram a um importante comerciante de Manaus, no caso Joaquim Gonçalves (J. G.) Araújo.

28 Janeiro 2010

O chute inicial da GoldGame

Fanático por futebol de videogame e adepto em especial do game PES-Pro Evolucion Soccer, criei no segundo semestre de 2009 a GoldGame, que organiza eventos de futebol virtual em aniversários, confraternizações e festas em geral, entregando e retirando os equipamentos, no local escolhido pelo cliente. E até onde consegui averiguar, a GoldGame tem uma proposta inovadora e única no mercado.

A idéia é aproveitar o clima futebolístico que já impera no país e que só tende a aumentar a partir de agora com a Copa da África do Sul e, na sequência, a Copa no Brasil. Como em quase tudo que fiz profissionalmente, é uma tentativa de unir o útil ao agradável, ou melhor, o rentável ao divertido.

A GoldGame tem site (criado pelo webmaster André Fernandes), logomarca (da autoria do designer gráfico Leonardo Amaro) e já conquistou seu primeiro cliente de peso: a escola de futebol Chute Inicial Corinthians Butantã.

Muito mais do que um bom cliente, encontrei na Chute Inicial Butantã grandes amigos na pessoa de Rodrigo Monaco e sua esposa Priscila, assim como em toda a sua excelente equipe. A todos a minha sincera gratidão.

A I Copa Chute Inicial Butantã
A iidéia de uma competição de futebol no videogame foi recebida com muito entusiasmo pelos alunos da escola e se adequou com perfeição à intenção de Rodrigo Monaco, coordenador da Chute Inicial Butantã, de oferecer algo diferente, divertido e, ao mesmo tempo, relacionado às atividades da escola. Logo a I Copa Chute Inicial Corinthians Butantã de futebol virtual virou uma das grandes atrações programadas para a festa de confraternização e de encerramento do ano letivo de 2009.

Participaram 64 alunos de várias idades, que se enfrentaram sem distinção por faixa etária. Afinal, como ficou demonstrado, tamanho não é documento quando se trata de habilidade no videogame. Foi utilizado o PES-2010, com livre escolha de time, sendo Barcelona e Real Madri os preferidos pela maioria.

Um justo campeão
Depois de várias partidas equilibradas, disputadas num esquema parecido ao de uma Copa do Mundo (mas sem a fase de grupos), chegou-se ao grande campeão: o jovem Lucas Locatelli Florenzano. Não foi uma casualidade, Lucas já havia conquistado um vice-campeonato entre 600 jogadores em outra competição.

Os rachões da seleção no videogame
O aperfeiçoamento dos games, que os deixa cada vez mais realistas e fascinantes, faz o número de adeptos aumentar em progressão geométrica, inclusive entre os astros do futebol retratados, como Robinho, Alexandre Pato e Messi.

Na seleção brasileira, o coordenador técnico Américo Faria é o responsável por providenciar o videogame e os jogos, principal diversão dos jogadores nas concentrações mundo afora,

Ronaldinho Gaúcho, garoto propaganda do Fifa Soccer, produto da EA Sports, já concedeu entrevista exclusiva sobre o assunto, declarando-se um grande aficionado desde criança.

Messi brilha no PES
A outra grande estrela nos mundos real e virtual é sem dúvida o argentino Lionel Messi, principal divulgador (junto com o espanhol Fernando Torres) do Pro Evolution Soccer, da Konami. Messi empresta seus movimentos ao clone virtual, que são capturados por sofisticada aparelhagem nos estúdios da empresa.



Los chicos brasileiros
Em dias normais de aula também ofereço um videogame e uma TV para diversão dos alunos. Certo dia estavam trajados de Estudiantes e Boca Juniors. Achei tão curioso que fiz o registro e enviei aos jornais argentinos Olé e La Nacion. Não sei se publicaram.

Como nasceu a Chute Inicial Butantã
A unidade Chute Inicial Butantã nasceu de uma mudança de planos na carreira do ex-jogador de futebol Rodrigo Monaco. A idéia da escola surgiu após Rodrigo rever suas chances de sucesso dentro de campo, uma vez que sofria com frequentes lesões.

Tendo sido formado, ironicamente, nas bases do Palmeiras e se profissionalizado no São Caetano, Rodrigo chegou a jogar em Santos, pelo time local da Portuguesa. No entanto, as reflexões sobre as dificuldades da carreira o fizeram decidir pelo abandono, abdicando do sonho de ser jogador, mas decidido a se manter atuante no futebol. A solução foi buscar preparação técnica como treinador.

Grandes mestres
Quando jogador, Rodrigo espelhava-se no campeão mundial César Sampaio, com quem chegou a ter boas conversas e lhe serviu de referência profissional e pessoal. Na mesma época, tempos da arrasadora parceria Palmeiras-Parmalat, conheceu outros grandes jogadores.

Para iniciar na nova carreira, não deixou por menos. Formou-se em Educação Física, fez graduação e pós-graduação em treinamento e participou de cursos ministrados por nada menos que Carlos Alberto Parreira, Luís Felipe Scolari, Paulo César Carpegiani e Paulo Paixão, entre outros.

Como graceja o próprio Rodrigo ao comentar a foto, Parreira parece pensar ao olhá-lo: "Esse é o cara!". Rodrigo também teve a sorte de receber orientações de outros grandes profissionais do seu meio, entre eles Luís Felipe Scolari, o competente Felipão.

A matéria-prima e as conquistas
Já na nova função e tendo trabalhado nas categorias de base do Corinthians, no ano 2000 Rodrigo deu um chute que acertou o ângulo, um golaço. Criou sua própria escola de futebol, inicialmente sob a bandeira do Juventus e posteriormente adotando a marca Chute Inicial, do Corinthians. Uma parceria que em pouco tempo já rendeu bons frutos e merece destaque entre as unidades do clube. Basta dizer que a secretaria da escola está repleta de troféus e em seus campos de treinamento já passaram diversos meninos aproveitados pelo Timão, inclusive o hoje ilustre Dentinho.

Rodrigo considera seus meninos uma "matéria-prima" que, sem descuidar da parte técnica, precisa ser trabalhada em diversos aspectos. Sua filosofia educativa tem sido coroada com muitas conquistas no campo. A primeira foi a "Copa Diarinho", patrocinada pelo Diário do Grande ABC, e a mais recente se deu em pleno Pacaembu, quando os meninos dente de leite da Chute Inicial Butantã sagraram-se campeões da Copa Cuebla, sob o comando do professor Luís.

Recentemente, a notícia de que o garoto Gustavo Lima, que por cinco anos foi aluno da escolinha, foi convocado para a seleção brasileira sub-15 trouxe mais uma alegria e a confirmação de que Rodrigo e sua equipe têm feito ótimo trabalho.

O timaço da Chute Inicial Corinthians Butantã. Sou grato a todos eles pela ótima recepção que me ofereceram. De pé, Daiane, Patrícia, Priscila, Rodrigo, Márcio, Diego e Fábio. Agachados, Marcel, Luís e Adriano.

Sem entrar em campo, o time feminino também bate um bolão. Priscila (ao centro), controla o meio de campo da administração e é assessorada por Patrícia e Daiane, que correm pelas laterais da Secretaria. Todas sob o comando do capitão Rodrigo. Professores e alunos sabem que podem contar sempre com a eficiência e a simpatia das mulheres da Chute Inicial Butantã.

O dia que o "Animal" chorou
Merece destaque a visita feita à Chute Inicial Butantã (dia 27/01) pelos ex-jogadores Edmundo e Neto. Ambos são agora comentaristas da Band e escolheram a escola para gravar matéria para a emissora.

Um momento inusitado foi quando os ex-craques, em conversa informal com a molecada, deram conselhos, falaram da infância pobre, das dificuldades do início de carreira e pediram obediência aos pais e professores. O polêmico Edmundo, o "Animal" (quem diria) até deixou escaparem lágrimas de emoção. Lembremos que o apelido foi dado como elogio pelo locutor Osmar Santos no início dos anos 90, mas ganhou conotação pejorativa devido ao difícil temperamento do jogador, que foi ídolo tanto no Corinthians quanto no Palmeiras.



O making of exclusivo feito por Rodrigo Monaco parece mostrar que os "ex-incendiários" já viraram "bombeiros" ou que o diretor George Stevens estava certo: os brutos também amam.

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19 Setembro 2009

Rodolpho Fares Jr., o cavaleiro do sétimo selo

Há três dias perdi um grande amigo e o xadrez paulista ficou sem um dos seus maiores militantes. Rodolpho Fares Jr. faleceu na tarde de 16 de setembro aos 49 anos em São Paulo, cidade onde nasceu no dia 22 de outubro de 1959.

Nem mesmo Rodolpho conseguiu identificar o local, a data e o adversário. A foto é mais uma das relíquias que encontrei num álbum que resgatei do lixo, conforme contei em post anterior.

Enfrentando a Morte no tabuleiro
Assim como o cavaleiro Antonius Block de "O sétimo selo", do diretor sueco Ingmar Bergman, Rodolpho via um mundo caótico, cheio de sofrimentos sem sentido e, como o personagem, também buscava explicações. Outra coincidência era o fato de ser frequentemente assediado pela Morte. Sua saúde era débil e não foram poucas as vezes que teve que recorrer a médicos, remédios e internações.

Block enfrentou a Morte, numa partida de xadrez, após se envolver em Cruzadas que não alcançaram seus objetivos. Fares não foi mais feliz. Sua cruzada pessoal de muito tempo pela popularização do xadrez obtinha resultados igualmente desalentadores. Nos últimos anos, o fechamento de clubes, o abandono de praticantes, a redução dos torneios e tantas outras más notícias pareciam recriar o ambiente devastado pela Peste Negra do filme.

A Peste Negra e a internet
O personagem de Bergman vive num mundo em transição, do Feudalismo ao Capitalismo, e vê a peste dizimar um terço da população de seu continente. O revolucionário surgimento da internet foi bom e mau para o xadrez ao mesmo tempo. Propiciou a acessibilidade, o intercâmbio, a facilidade das informações e do conhecimento, a comodidade e, para alguns jogadores, o anonimato sonhado. Por outro lado, contribuiu para o esvaziamento dos clubes físicos, reais.

Em 7 fevereiro de 2005 não fazia muito tempo que Rodolpho havia perdido a pessoa mais importante da sua vida, dona Ana Fares, sua mãe. Porém, encontrou forças para colaborar na organização (juntamente com meu outro amigo Mauro Amaral) e me consolar no Memorial Amadeu Franco, feito em homenagem ao meu pai, falecido dois dias antes. Como era de se esperar, ele foi o campeão daquela primeira edição do Memorial.

Nesse contexto, clubes reais passaram a ser supérfluos, assim como adversários (e amigos) de carne e osso. A "peste" da internet provocou o "extermínio" de grande parte dos enxadristas reais, que aderiram sem reservas às facilidades (e à privacidade) do mundo virtual. No exato momento em que os clubes estão às moscas o ICC tem jogadores aos milhares.

Maciel, o fiel escudeiro
Block teve seu escudeiro Jons. Fares pôde ao menos contar com muitos deles. Podemos citar Sérgio Almeida, Jorge Rezala, Jorge Hassen e, em outros tempos, Nelson Ratcu, como grandes aliados. Porém, o nome de Wilson Maciel Jr. é sempre o primeiro que me vem à cabeça dentre os que compartilharam os sonhos de Rodolpho e sempre estiveram em seu auxílio na sua cruzada enxadrística.

Matchs entre clubes que serviam na verdade como oportunidades de reencontro de amigos eram frequentemente propostos e organizados por Rodolpho. O Sírio sempre reunia boa equipe, porém o resultado em nada lhe interessava, somente a confraternização. Wilson Maciel (camisa azul escura, de pé) e Jorge Hassen (de bigode, apoiado na mesa), como grandes amigos e colaboradores de Rodolpho estavam quase sempre presentes, como nesse encontro Paineiras-Sírio, em 2004.

A dor da solidão
Sem mulher, sem filhos e morando sozinho, Rodolpho se ressentia da falta de uma família, o que ele encarava como uma verdadeira via crúcis. Sua busca quase desesperada por amigos, ainda que virtuais (ele saía adicionando centenas de estranhos no Orkut na esperança de encontrar verdadeiros amigos), era uma forma de criar uma irmandade que fosse um arremedo de família. Ele sabia que podia contar com alguns amigos, mas hesitava em incomodá-los, tinha grande receio de privar suas famílias da presença deles, exatamente o que não queria para si. Nosso amigo morreu em parte de solidão.

Os amigos e os farsantes
Deus e o Diabo não se dirigem diretamente ao cavaleiro, no filme. São charlatões, farsantes que falam por eles. Rodolpho teve muitos parceiros, colegas, companheiros ocasionais, mas os amigos de verdade, que ele tanto buscou, foram poucos. Acredito ter passado nos testes de fogo de amizade que me foram propostos. Certa vez recebi um telefonema dele quase à meia-noite solicitando um abrigo para passar a noite porque havia perdido a chave da sua casa. Em tantas outras ocasiões o acolhi na minha casa por motivos inusitados. Tive também a felicidade de tê-lo entre minha família numa comemoração de Natal.

Preciso ser honesto para admitir que às vezes os inúmeros problemas do meu amigo Rodolpho, especialmente os psicológicos, aborreciam. Bastava um breve distanciamento para ele entrar em contato fazendo questionamentos e cobranças, com sua característica ironia. Normalmente eu me divertia quando atendia ao telefone e ouvia: "É da casa do dr. Moisés Arruda? Será que ele tem tempo para uma audiência com um velho amigo?", mas algumas vezes ele exagerava na carência e incomodava. Mas sabia que fazia isso somente com aqueles que considerava amigos verdadeiros, especiais, e também lembrava das muitas vezes que fora generoso comigo.

Tati Ratcu, a grande descoberta
No filme a Morte poupou somente os artistas. Meu amigo Rodolpho tinha grande orgulho de ter sido o descobridor e primeiro professor da mestra internacional Tatiana Ratcu, uma verdadeira artista do tabuleiro, por cinco vezes campeã brasileira, quatro delas de forma consecutiva.

Como encontrei o cavaleiro
Encontravamo-nos com frequência nos torneios e um bate-papo nos intervalos era inevitável. Este aconteceu no clube A Hebraica, em data que não recordo.

Fui apresentado ao Rodolpho em 1999 e logo recebi o convite para participar do campeonato interno do Esporte Clube Sírio daquele ano. Por mais de trinta anos o Sírio teve o privilégio de contar com os excelentes serviços de Rodolpho, primeiro somente como jogador e depois acumulando a função de diretor do seu departamento de xadrez.

À época eu fazia um trabalho voluntário com xadrez no Grupo Pão de Açúçar com excelentes resultados. Desse trabalho surgiram bons jogadores e ótimos amigos, dentre outros Artur Godeli e Aldemar Kimura Jr., que o enorme coração do Fares também acolheu.

Apenas alguns meses após nos conhecermos já éramos grandes amigos e realizamos em parceira aquele que é até hoje o maior e talvez o melhor evento enxadrístico realizado no Sírio. Mesmo cético com as grandes expectativas que eu nutria (sou um megalomaníaco incorrigível), Rodolpho me deu total apoio para a concretização do projeto.

O Open Pão de Açúcar Kids
No final das contas, o Open Pão de Açúcar Kids reuniu 239 jogadores no salão nobre do clube, numa época em que atrair 100 participantes era uma façanha em qualquer clube.

Kimura (à esquerda) e Godeli foram "adotados" por Rodolpho e defenderam as cores do Sírio muitas vezes.

A organização, a premiação e o nível dos jogadores são um testemunho de que foi um evento singular. Para se ter uma idéia, o hoje GM André Diamant, já um menino prodígio na ocasião, foi apenas vice-campeão na sua categoria. Desconheço também que premiação melhor (videogames, bicicletas e CD players) tenha sido dada, mesmo posteriormente, em qualquer outro evento infanto-juvenil no país. Sem o apoio do Rodolpho nada disso teria sido possível.

Descanse em paz, meu amigo
Meu amigo, espero que tenha feito sua passagem (Rodolpho era espírita) de forma tranquila e que possa retornar para uma outra vida muito mais feliz. Saiba, porém, que, se infelizmente não alcançou a felicidade merecida nessa existência recém-finda, sou testemunha de que fez grande esforço para proporcionar bons momentos aos seus semelhantes e que deixou grandes exemplos de integridade e bondade.

Em tempo: Rodolpho, seu "Parmera" continua líder (por enquanto) e não joga neste final de semana só para ficar secando o meu São Paulo, que já aparece no retrovisor.

Ah, não esqueci, mas vou continuar devendo aquela pizza que você sempre me cobrava. Fica o desejo de que nos encontremos numa outra existência para então devorarmos ela juntos. Mas vê se da próxima vez não tomba o rei tão prematuramente. Sei que você acreditava estar em zug na partida com a Morte, mas como exímio jogador talvez pudesse enrolar mais um pouco. Até a próxima, amigo.

29 Agosto 2009

O menino que fugiu do frio e encontrou a poesia

Ele já havia contado essa história em entrevista concedida a Rodrigo Leão, mas a repetiu a mim em longa conversa ao telefone. Afinal, foi colega de trabalho e grande amigo do meu pai, ambos boêmios inveterados e cúmplices de muitas outras histórias menos inocentes (pelo menos do ponto de vista das esposas).

Falando da infância, o poeta conta que os clássicos universais (Balzac, Zola, Dostoievsky, Tolstói, Proust, Camões e outros) eram obrigatórios na sua casa, mas que arranjava jeito de se divertir com gibis e outras leituras mais amenas.

Na apresentação deste CD, Adelson Santos compara: "Aníbal Beça está para o Amazonas assim como Gil e Caetano estão para a Bahia". Obra de 1995, contém a interessante "Marapatá", em homenagem à ilha próxima a Manaus onde Mário de Andrade fez seu personagem Macunaíma deixar a consciência "sobre um pé de caruru".

Um curumim no Rio Grande

Aos doze anos foi levado ao Rio Grande do Sul para ser interno no colégio marista São Jacó. Sua ascendência de gente letrada, que inclui os ilustres escritores maranhenses Artur e Aluísio Azevedo, certamente foi decisiva para que tivesse desde o berço a melhor educação.

No Sul, passava a semana em Novo Hamburgo, no colégio, e aos sábados e domingos ia a Porto Alegre ver as matinës, o cinema.

Um dia saiu da sessão e foi surpreendido por um vento muito frio e forte. Era o Minuano, que o menino amazonense ainda desconhecia. Sua avó o havia prevenido do frio das terras gaúchas, mas ele o subestimara, recusara o agasalho e se via agora em apuros.

Meu pai, Amadeu Franco, à esquerda, e o poeta Aníbal Beça, à direita, na redação do extinto jornal amazonense "A Notícia", onde foram colegas por certo período, nos anos 80. Amigos e parceiros de boêmia, viveram muitas aventuras inconfessáveis às esposas.

Encontrando Quintana e a poesia
Passando em frente a uma livraria, resolveu usá-la como abrigo fingindo-se de cliente. O disfarce foi percebido por um senhor, que puxou conversa.

"O que o jovem deseja? Está procurando o quê para leitura?"

A resposta pouco convincente levou o guri a contar a verdade e logo seu sotaque também o fez esclarecer que era na verdade um curumim, ou seja, um menino de Manaus.

O poeta, tradutor e jornalista Mário Quintana (1906-1994) foi amigo e fonte de inspiração para Aníbal Beça. Foi o assédio das normalistas ao poeta gaúcho que despertou o desejo em Beça de também conquistá-las com poesias.

O homem simpático perguntou se ele gostava de poesia. A resposta positiva mereceu um presente, o livro "Canções". No momento da dedicatória veio mais uma surpresa do dia. O menino estava diante do próprio autor, Mário Quintana.

Daí nasceu uma amizade e as idas ao cinema terminavam frequentemente em visitas ao grande poeta e novo amigo.

Certa vez a visita ao amigo proporcionou uma cena deslumbrante. O poeta gaúcho estava cercado de moças enamoradas de sua arte de criar e declamar poemas.

A cena que não lhe saía da cabeça gerou uma decisão resoluta: seria daí em diante um poeta porque também queria viver rodeado de moças.

E assim nasceu o poeta Aníbal Beça.

Homenagem, ainda que tardia
Este post chega atrasado como homenagem ao poeta, jornalista, escritor, músico e tantas coisas mais que foi Aníbal Beça. Tenho orgulho da amizade que manteve com meu pai e de ter merecido sua admiração. Este modesto blog figurava entre seus favoritos, o que muito me honrava. Beça faleceu, aos 62 anos, na noite do dia 24 para o dia 25 de agosto, vítima de infecção hospitalar na Beneficente Portuguesa de Manaus, segundo Simão Pessoa.