19 Setembro 2009

Rodolpho Fares Jr., o cavaleiro do sétimo selo

Há três dias perdi um grande amigo e o xadrez paulista ficou sem um dos seus maiores militantes. Rodolpho Fares Jr. faleceu na tarde de 16 de setembro aos 49 anos em São Paulo, cidade onde nasceu no dia 22 de outubro de 1959.

Nem mesmo Rodolpho conseguiu identificar o local, a data e o adversário. A foto é mais uma das relíquias que encontrei num álbum que resgatei do lixo, conforme contei em post anterior.

Enfrentando a Morte no tabuleiro
Assim como o cavaleiro Antonius Block de "O sétimo selo", do diretor sueco Ingmar Bergman, Rodolpho via um mundo caótico, cheio de sofrimentos sem sentido e, como o personagem, também buscava explicações. Outra coincidência era o fato de ser frequentemente assediado pela Morte. Sua saúde era débil e não foram poucas as vezes que teve que recorrer a médicos, remédios e internações.

Block enfrentou a Morte, numa partida de xadrez, após se envolver em Cruzadas que não alcançaram seus objetivos. Fares não foi mais feliz. Sua cruzada pessoal de muito tempo pela popularização do xadrez obtinha resultados igualmente desalentadores. Nos últimos anos, o fechamento de clubes, o abandono de praticantes, a redução dos torneios e tantas outras más notícias pareciam recriar o ambiente devastado pela Peste Negra do filme.

A Peste Negra e a internet
O personagem de Bergman vive num mundo em transição, do Feudalismo ao Capitalismo, e vê a peste dizimar um terço da população de seu continente. O revolucionário surgimento da internet foi bom e mau para o xadrez ao mesmo tempo. Propiciou a acessibilidade, o intercâmbio, a facilidade das informações e do conhecimento, a comodidade e, para alguns jogadores, o anonimato sonhado. Por outro lado, contribuiu para o esvaziamento dos clubes físicos, reais.

Em 7 fevereiro de 2005 não fazia muito tempo que Rodolpho havia perdido a pessoa mais importante da sua vida, dona Ana Fares, sua mãe. Porém, encontrou forças para colaborar na organização (juntamente com meu outro amigo Mauro Amaral) e me consolar no Memorial Amadeu Franco, feito em homenagem ao meu pai, falecido dois dias antes. Como era de se esperar, ele foi o campeão daquela primeira edição do Memorial.

Nesse contexto, clubes reais passaram a ser supérfluos, assim como adversários (e amigos) de carne e osso. A "peste" da internet provocou o "extermínio" de grande parte dos enxadristas reais, que aderiram sem reservas às facilidades (e à privacidade) do mundo virtual. No exato momento em que os clubes estão às moscas o ICC tem jogadores aos milhares.

Maciel, o fiel escudeiro
Block teve seu escudeiro Jons. Fares pôde ao menos contar com muitos deles. Podemos citar Sérgio Almeida, Jorge Rezala, Jorge Hassen e, em outros tempos, Nelson Ratcu, como grandes aliados. Porém, o nome de Wilson Maciel Jr. é sempre o primeiro que me vem à cabeça dentre os que compartilharam os sonhos de Rodolpho e sempre estiveram em seu auxílio na sua cruzada enxadrística.

Matchs entre clubes que serviam na verdade como oportunidades de reencontro de amigos eram frequentemente propostos e organizados por Rodolpho. O Sírio sempre reunia boa equipe, porém o resultado em nada lhe interessava, somente a confraternização. Wilson Maciel (camisa azul escura, de pé) e Jorge Hassen (de bigode, apoiado na mesa), como grandes amigos e colaboradores de Rodolpho estavam quase sempre presentes, como nesse encontro Paineiras-Sírio, em 2004.

A dor da solidão
Sem mulher, sem filhos e morando sozinho, Rodolpho se ressentia da falta de uma família, o que ele encarava como uma verdadeira via crúcis. Sua busca quase desesperada por amigos, ainda que virtuais (ele saía adicionando centenas de estranhos no Orkut na esperança de encontrar verdadeiros amigos), era uma forma de criar uma irmandade que fosse um arremedo de família. Ele sabia que podia contar com alguns amigos, mas hesitava em incomodá-los, tinha grande receio de privar suas famílias da presença deles, exatamente o que não queria para si. Nosso amigo morreu em parte de solidão.

Os amigos e os farsantes
Deus e o Diabo não se dirigem diretamente ao cavaleiro, no filme. São charlatões, farsantes que falam por eles. Rodolpho teve muitos parceiros, colegas, companheiros ocasionais, mas os amigos de verdade, que ele tanto buscou, foram poucos. Acredito ter passado nos testes de fogo de amizade que me foram propostos. Certa vez recebi um telefonema dele quase à meia-noite solicitando um abrigo para passar a noite porque havia perdido a chave da sua casa. Em tantas outras ocasiões o acolhi na minha casa por motivos inusitados. Tive também a felicidade de tê-lo entre minha família numa comemoração de Natal.

Preciso ser honesto para admitir que às vezes os inúmeros problemas do meu amigo Rodolpho, especialmente os psicológicos, aborreciam. Bastava um breve distanciamento para ele entrar em contato fazendo questionamentos e cobranças, com sua característica ironia. Normalmente eu me divertia quando atendia ao telefone e ouvia: "É da casa do dr. Moisés Arruda? Será que ele tem tempo para uma audiência com um velho amigo?", mas algumas vezes ele exagerava na carência e incomodava. Mas sabia que fazia isso somente com aqueles que considerava amigos verdadeiros, especiais, e também lembrava das muitas vezes que fora generoso comigo.

Tati Ratcu, a grande descoberta
No filme a Morte poupou somente os artistas. Meu amigo Rodolpho tinha grande orgulho de ter sido o descobridor e primeiro professor da mestra internacional Tatiana Ratcu, uma verdadeira artista do tabuleiro, por cinco vezes campeã brasileira, quatro delas de forma consecutiva.

Como encontrei o cavaleiro
Encontravamo-nos com frequência nos torneios e um bate-papo nos intervalos era inevitável. Este aconteceu no clube A Hebraica, em data que não recordo.

Fui apresentado ao Rodolpho em 1999 e logo recebi o convite para participar do campeonato interno do Esporte Clube Sírio daquele ano. Por mais de trinta anos o Sírio teve o privilégio de contar com os excelentes serviços de Rodolpho, primeiro somente como jogador e depois acumulando a função de diretor do seu departamento de xadrez.

À época eu fazia um trabalho voluntário com xadrez no Grupo Pão de Açúçar com excelentes resultados. Desse trabalho surgiram bons jogadores e ótimos amigos, dentre outros Artur Godeli e Aldemar Kimura Jr., que o enorme coração do Fares também acolheu.

Apenas alguns meses após nos conhecermos já éramos grandes amigos e realizamos em parceira aquele que é até hoje o maior e talvez o melhor evento enxadrístico realizado no Sírio. Mesmo cético com as grandes expectativas que eu nutria (sou um megalomaníaco incorrigível), Rodolpho me deu total apoio para a concretização do projeto.

O Open Pão de Açúcar Kids
No final das contas, o Open Pão de Açúcar Kids reuniu 239 jogadores no salão nobre do clube, numa época em que atrair 100 participantes era uma façanha em qualquer clube.

Kimura (à esquerda) e Godeli foram "adotados" por Rodolpho e defenderam as cores do Sírio muitas vezes.

A organização, a premiação e o nível dos jogadores são um testemunho de que foi um evento singular. Para se ter uma idéia, o hoje GM André Diamant, já um menino prodígio na ocasião, foi apenas vice-campeão na sua categoria. Desconheço também que premiação melhor (videogames, bicicletas e CD players) tenha sido dada, mesmo posteriormente, em qualquer outro evento infanto-juvenil no país. Sem o apoio do Rodolpho nada disso teria sido possível.

Descanse em paz, meu amigo
Meu amigo, espero que tenha feito sua passagem (Rodolpho era espírita) de forma tranquila e que possa retornar para uma outra vida muito mais feliz. Saiba, porém, que, se infelizmente não alcançou a felicidade merecida nessa existência recém-finda, sou testemunha de que fez grande esforço para proporcionar bons momentos aos seus semelhantes e que deixou grandes exemplos de integridade e bondade.

Em tempo: Rodolpho, seu "Parmera" continua líder (por enquanto) e não joga neste final de semana só para ficar secando o meu São Paulo, que já aparece no retrovisor.

Ah, não esqueci, mas vou continuar devendo aquela pizza que você sempre me cobrava. Fica o desejo de que nos encontremos numa outra existência para então devorarmos ela juntos. Mas vê se da próxima vez não tomba o rei tão prematuramente. Sei que você acreditava estar em zug na partida com a Morte, mas como exímio jogador talvez pudesse enrolar mais um pouco. Até a próxima, amigo.

10 comentários:

Wilson disse...

Caríssimo Amigo e Mestre Moisés Arruda,

Belíssima Homenagem !


O tempo parou enquanto eu li !!


Com respeito e admiração,

Wilson Maciel Jr
E Família

Decio Ashcar disse...

Caro Moisés:

O Memorial Amadeu Franco foi meu primeiro torneio após 20 anos sem xadrez.

Tive a oportunidade de conhecer o Rodolpho, você, o Maciel e tantos outros amigos.

Compartilho com você e com muitos amigos o sentimento de que muitas vezes as homenagens aqui na Terra são pouco justas.

Decio Ashcar

sergio almeida disse...

O Anjo

O Anjo entrou no clube!
Que estava cheio de homens tristes, alegres, preocupados,
Que jogavam xadrez para se lembrar, esquecer, se alegrar ...

Então Deus disse ao Anjo
- Você esta certo disso ?
E Ele prontamente,
- Claro que sim !

Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo,
Tende piedade de nós !
Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo,
Tende piedade de nós !
Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo,
Dai-nos a Paz !

Então o Céu perdeu mais um Anjo,
Tornado homem, triste, alegre, preocupado,
Pelo mágico desejo de jogar um torneio de xadrez ...

Em 16 de setembro de 2009 Deus chamou novamente seu anjo para jogar com ele nos Céus ...

Moisés Arruda disse...

Querido Wilson, fico feliz que tenha gostado do texto. Sua opinião como talvez o maior herdeiro do legado de sonhos, esperanças e bons sentimentos do nosso amigo que partiu é muito importante para mim. Espero ter agradado igualmente o homenageado.

Décio, foi uma honra contar com sua presença no Memorial do meu pai. Também sou muito grato por isso. Só desconfio até hoje que você, gentilmente, tenha facilitado as coisas para mim no tabuleiro em função das circuntâncias, porque sei que meu xadrez é minúsculo diante do seu. Obrigado, meu amigo.

Sérgio, que belíssima e comovente homenagem! Percebe-se que o anjo citado no seu poema, mesmo tendo partido, continua a extrair o melhor de nós. Parabéns.

Anônimo disse...

Que o anjo, Sérgio, possa sorrir mais onde estiver e reconheça em cada amigo que deixou por aqui um outro anjo!

A vc Moysés, obrigada pela homengem de alguém que conhecia o Rodo como ninguém.

A todos vcs o meu sincero muito obrigada.

Victoria Fares

CerristaSPBR disse...

Vale lembrar que, no I Memorial Amadeu Franco, o querido amigo Fares teve que ir embora após o término de sua última partida, achando que seria o meu vice, mas eu perdi uma partida contra alguém que não vinha tão bem, e ele foi o campeão mesmo sem estar presente. :)

Que sua obra no Sírio tenha continuidade, esta seria a melhor homenagem a ele !

Se eu tivesse que descrever o Fares em apenas uma palavra, diria:

Cavalheiro.

Abraços a todos,

AI Mauro Amaral

Patty disse...

Moisés, mesmo sem ter um contato tão próximo do Rodolpho (só sabia das coisas através do meu pai), me emocionei com seu texto.
Você, definitivamente, usou as "minhas" letras com grande propriedade.
Digo isso com conhecimento de causa, empiricamente.

Meus sentimentos, de verdade.

B*joksss

Patty Maciel

Anônimo disse...

Feliz aniversário, Rodo...

22/10/09 (50 anos)

Victoria

オテモヤン disse...

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